A casa dos fundos.

Página 109.

Foram momentos traumatizantes, eu não tinha força emocional para tentar reagir, e por mais que ele me ferisse tanto, nunca teria coragem de retribuir. Foi doloroso e causou-me medo.. - Vocês já devem ter visto a palavra medo centenas de vezes aqui, mas dessa vez era algo diferente.. Era receio dele. Até onde ele seria capaz de ir? Irão me odiar por esta confissão, mas já cheguei a imaginar que se um dia ele me matasse, gostaria que ele sentisse um remorso tão imenso que virasse amor! Meus pensamentos eram realmente absurdos assim como minha incompetência em impor limites. - Fiquei ali, chorando e machucada, tempo suficiente para seus primos chegarem e vierem chamar Richard para ir para a casa de Rebeca. Por tanto, todo aquele sacrifício, no fim, de nada adiantou.
Enxuguei as lágrimas, porque apesar de tudo, não queria causar confusão. Meus membros.. Todos extremamente doloridos, mas não tanto quanto meu coração.
E o que ele fez? Bom, ele disfarçou tão bem quanto eu, respirou para aliviar o restante da raiva que não foi liberada por falta de tempo de "murros". Deu-me uma pedra de gelo para colocar sobre o local que estava enxado e que ficou roxo instantaneamente, mas não houve pedido de desculpas.. Apenas um sermão de o porquê eu tinha apanhado, como se fosse um pai explicando para uma filha.. Com frases como.. "Você me irritou, você causou isso, a culpa é sua por ser tão chata!"
No final das contas, Richard me deixou na calçada de sua casa e saiu com sua irmã.
Seus primos também estavam indo, mas antes da partida, a irmã de Kleber veio falar comigo, sem saber de fato o que ocorrera, lembro-me nitidamente e escrevo com certa angustia estas palavras..

- Sophie, vai para casa. Se quiser eu te levo. Se enxerga.. olha para você! Ele não te merece, você não merece, não merece passar por isso!

Em seu olhar era visível sua preocupação. Rios de tristeza transbordaram em minha pele.. Aquela noite foi tão triste, que não quero mais relatar o que aconteceu no restante dela. Fiquei completamente atordoada desde então, um segredo que eu mantive comigo que me corroía por dentro.. Porque ainda assim, queria protegê-lo.
Minhas idéias fugiram do controle quando soube por Marcos Vinícius, que Richard falando em tom de “majoritário” contou a ele e outro amigo, que havia ‘batido’ em mim. Inacreditável. Eu poderia ter minha parcela de culpa – por mais que violência não se justifica – nas cenas terríveis que passei, ele poderia ter usado sua força inconscientemente no fervor do momento, mas foi completamente lúcido que ele contou vantagem disso, tão imaturo, tão hipócrita! E eu, tão idiota.. - Pausa dramática para conselho essencial.. - Todo mal deve ser cortado pela raiz, acredite! Depois que o estrago começa ser feito, é praticamente impossível quebrá-lo.. Homens demonstram o que sentem, e se não demonstram nada, é porque realmente não sentem nada.. É assim que funciona. Mas eu, pequena no meio de um universo azul marinho, com nuvens negras e tempestades, só conseguia ver o melhor naquilo que me trazia o pior!
Busco palavras, mas não as encontro, para descrever o trauma que fiquei daquele pesadelo real! Pessoas e pessoas me perguntavam o que eram aqueles roxos em meus braços, eu engolia o choro e a dor, e respondia que havia caído da escada novamente, mas eles - o choro e a dor - não faziam digestão.
Finalmente, ao escolher a dedo alguém de confiança.. Foi para Duda que desabafei, e a reação dela foi exatamente a que qualquer outra pessoa teria: Raiva, indignação, frustração! E conselhos que de nada adiantaram foram lançados no ar, meu subconsciente já dominado por algo sobrenatural, só ouvia algo se começasse assim “Bom, para você voltar com Richard, você tem que fazer..”  Caso contrário, qualquer palavra seria inútil. Mas, ao perceber isto, Duda me apresentou á uma consulta com um Psicólogo, no meu caso, era uma psicóloga. Eu aceitei, porque naquela semana, todas as minhas noites foram em claro, rolava de um lado para outro, agarrando o travesseiro para me sentir protegida.
Suava de angústia e transtorno e toda vez que tentava fechar os olhos, vinha em minha mente Richard me esbofeteando e aquilo me destroçava e passei a ter pânico de dormir. E foram no ritmo de ''Coldplay – Fix You'', que minhas lágrimas dançaram durante todos aqueles períodos noturnos e tenebrosos.. A música tinha uma melodia dramática, trágica e apelativa, que combinava com tudo que eu sentia, e a tradução de seu refrão, era mais ou menos assim:
Quando as lágrimas começam a rolar pelo seu rosto, quando você perde algo que não pode substituir.. Quando você ama alguém, mas é desperdiçado..Pode ser pior? Luzes vão te guiar até em casa, e aquecer teus ossos, e eu tentarei, consertar você.
Não é necessário mais nenhum comentário adicional, ela fala por si.

Finalmente, depois de tanta aflição e cortes emocionais, lá estava eu, em uma sala com uma janela de vidro, que tinha de paisagem de uma avenida movimentada, com prédios longos no meio de árvores.
A psicóloga, era uma senhora de cabelo curto e robustos que aparentava uns 40 anos de idade, seu nome era Clara. E sua primeira fala foi..

- Me conte, o que te trouxe até aqui?!

Comentários

  1. Confesso que não lia o seu livro por preguiça, mas realmente ele esta muito bom, espero que eu consiga ler até o final desta trágica história. Beijos e muito sucesso Nay V.

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