A casa dos fundos.
Capítulo IV
Lágrimas de Sangue.
Página 107.
Quero relatar a primeira quebra de personalidade digna que me restava. O primeiro cúmulo destroçado. Calma! Peço calma, tentando os preparar emocionalmente.
Meras palavras jamais relatariam de forma correta e tão intensa e assustadora quando de fato ocorreu, é completamente difícil descrever sentimentos, principalmente diante de atos tão assombrosos. Irá ficar cada vez mais complexo, e indignante. Mas é o que esta por vir.. Veio.
Em um sábado a noite, o namorado de Carlota – sim, ainda namorado – me convidou para uma visita. Naquele ponto, eu já estava completamente no êxtase da não-lucidez. Lorrane estava dormindo aqui em casa e minha mãe, viajando.. Perfeita oportunidade de fuga.
De madrugada, senti medo dos "caras-de-mau" que estavam na rua, afinal só eu tinha o direito de tirar minha vida. Mas, eu mal imaginava, que deveria ter medo do que está perto.
Fui recebida com abraços, aconchegos, beijos.. Quanto carinho! Ele me deu a liberdade para me sentir a “amada” de novo, agiu por livre e espontânea vontade me isentando de toda a culpa. Nos conectamos, de todas as formas possíveis. Foi uma noite inesquecível, por auges e quedas tão intensas que houve nela. Após senti-lo em mim outra vez, recebi selinhos e algumas carícias.. Deitados, olhando para o teto, trocamos palavras inúteis para ocupar o tempo da mente. Mas a sua patifaria novamente surgiu, Richard não precisou dizer uma palavra para eu entender de que lembrará que ainda tinha namorada, seus olhos tentaram colocar limite, onde já havia se quebrado.
Ele tentou se levantar, mas eu não iria deixar que ele provocasse em mim a sensação de ser – com todo perdão da palavra – uma vadia, porque simplesmente eu não era, era uma simples garota cega e apaixonada, obcecada por uma pessoa que virou vício, e só por isso se entregava, por amor - por amor que nós fazemos as piores loucuras, ou melhores.
Em sua segunda tentativa de sair de perto de mim, eu o abracei e me envolvi com pernas e braços em seu corpo, de maneira com que ele não pudesse se mexer..
- Sophie, me solta!
- Para, relaxa.. Não estraga o momento. Só mais um pouquinho!
- Não, chega!
- Vai me mandar embora de novo?
Ouve uma troca de ar.
- Não! Só não quero mais ficar perto de você.
Mas eu queria e era isso que importava! Pela primeira vez não acreditei em suas palavras – tola – pelo fato de o convite ter surgido dele! E, vocês queridos olhos que acompanham essas palavras, alguma vez na vida, nem que seja uma única vez, deve ter tido uma paixão avassaladora, que a (o) fez cometer atos inconscientemente, por impulso, e por necessidade – pelo menos é esta sensação que o auge do sentimento causa: Necessidade - algo inconsequente.
Não conseguia olhar para o rosto de Richard, tinha medo de enxergar alguma afeição de raiva que me descontrolasse. Eu estava tentando ser equilibrada, só queria sentir seus braços por alguns segundos , mas acabei sentindo mais do que deveria..
Ele se irritou, rápido demais, como nunca havia ocorrido antes.. Empurrou-me para o lado, fechou seu punho e socou minha coxa com ódio explodindo em seu olhar. As dores foram em triplo. A física, o espanto, e a decepção. Ele tinha acabado de me dar um murro, e aquilo parecia tão surreal.. Tão inacreditável. Suas palavras eram as de mais baixo 'calão', mas.. Bater, era sério demais.
Criei poças e poças no lençol de sua cama.. Não questionei, não consegui falar nada. Durante esse tempo todo sem ele, muitas águas haviam sido derramadas, mas nunca, tantas como neste momento. Figurativamente, na minha mente havia um abismo, nem os pensamentos quiseram se manifestar. Eu fiquei tão indignada, e preocupada.. Não comigo, e sim com ele.. No que ele estava se tornando?! Em um monstro?
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