A casa dos fundos.

Página 95.

Comecei a fazer uma tremenda força para gritar:

- MÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃAE!

Arrependi-me instantaneamente, porque parecia que várias abelhas haviam picado minha garganta, que sensação horrível! 
Ela de fato entrou no quarto rapidamente..

- O que foi filha? Você está bem?

Eu necessitava perguntar. Mas estava doendo muito. Que agonia! As lágrimas desceram, esquentando a pele do meu rosto.
Um esforço pela droga de meu vício. Só consegui dizer..

- Ri.. Rich.. Richar.... Richard.

O “D” quase não saiu. Os olhos de minha mãe se enfureceram. Mas ela tentou se conter, percebi que sua reação foi a pior possível. Senti que ela teve cautela em responder, mas não uma cautela por medo de reação, e sim pela verdade omitida.

-  Nós o avisamos, mas não sei dele. Não veio aqui, não ligou, não se preocupou em saber seu estado ok? Quando for algo importante me chame.

E saiu. Que palavras cruéis! Eu entendia o lado dela, claro que sim.. No lugar dela, teria os mesmos sentimentos. Mas eu a conhecia, sabia que havia uma mentira nesse meio e eu completamente incapacitada de fazer algo á respeito!
Deixe-me descrever de maneira baixa e chula como estava meu estado naquele momento: Definitivamente, uma MERDA!

Com os tempos fui me recuperando, porém meu estomago já recusava aquela comida sem sal do hospital.
Em um dos dias, ouvi o médico conversando com a enfermeira:

Ela está se recuperando fácil, isso é um milagre maior do que o fato dela ter sobrevivido e não ter ocorrido nenhuma fratura grave”.

Confesso que senti uma tremenda raiva ao ouvir aquelas palavras. Pra que eu tinha que viver, se pra nada eu servia? Tão inútil com um amor louco que só conseguia atrapalhar a vida de meu amado.. Queria vê-lo tão feliz. Mas era tudo tão intenso, que qualquer reação causada em mim, era o dobro do que causada em qualquer outra pessoa. Repito, era como se eu não tivesse escolha.  
Em um dos meus últimos dias dentro daquela caixa branca que chamavam de quarto, a meu pedido a enfermeira me trouxe o celular.
Quando liguei o visor, havia 6 chamadas perdidas, com o nome de “Richard”.
Ele havia me ligado sim. Para qualquer pessoa, alguém que havia sido atropelada, e ficado durante 4 dias dentro de um hospital, 6 ligações era muito pouco. Mas por se tratar de Richard, acredite, era muito, muito mesmo. Ele era orgulhoso e jamais daria a mão a torcer por qualquer coisa que tivesse relacionada a mim, a menos que realmente estivesse preocupado. Isso me deixou um tanto confortável, saber que havia pelo menos um mínimo carinho guardado. Era o que eu acreditava. Mas, e minha mãe? Porque esconderá isso de mim? Se imaginasse o quanto a omissão dessa informação havia me causado sofrimento, teria pensado tantas vezes antes de fazê-la. E eu, na rebeldia da emoção, só consegui ficar com raiva dela. Tão tola e ingênua, não me era.
Evitei rodeios de mente e liguei na hora para Richard, o frio em minha barriga aumentava em cada toque. Até que finalmente..

- Alô?
- Oi. Você me ligou?
- Nossa, Sophie! Finalmente! Porque não atendia ao telefone?
- O meu celular não estava comigo. Consegui mexer nele só agora.
- É verdade que você foi atropelada?
- É, to aqui no hospital. Pensei que não tinha vindo me visitar porque não se importava.
- Eu nem sabia se era verdade ou não, foi o primo de uma menina da escola que me contou. Tentei te ligar pra saber, mas só chamava e não atendia.

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