A casa dos fundos.

Página 64.


Desci por uma viela para cortar caminho com o coração alterado. Passei em frente a delegacia, alguns bêbados jogados ao chão. Na avenida, o forró nos bares estava em alta. E em algumas esquinas, os “marginais” observando o movimento.
Subi então com pressa, mas o medo era contraditório dessa vez. Meu medo não era acontecer algo comigo, ou minha mãe acordar e perceber que não estava em casa. Meu medo era chegar lá e ver nos olhos de Richard que o ponto final era para sempre na história de nós dois.

Acelerei os passos e finalmente me encontrei na calçada de sua moradia. Estava tudo escuro, porém na residencia da frente uma luz estava acesa. Tinha medo de gritar seu nome e alguém de sua família que morava na primeira casa me visse, "dedurasse", reclamasse com Dona Adriana.
Tentei ligar, mas a voz eletrônica me informou novamente que “O celular chamado estava fora de área ou desligado”. Mandei um Sms, com as seguintes palavras:

Estou em frente a sua casa, esperando você. Não vou sair enquanto não vir
Esperei uns 20 min e nada. Seu avô abriu a porta de casa da frente e me avistou. Imaginei o quanto Richard me odiaria por ter deixado que seus parentes me vissem. 
Dei alguns passos para frente em direção ao ponto de ônibus, para forjar minha presença. Talvez fingir que estava ali, àquela hora, esperando um transporte público. Foi a única coisa que consegui pensar.
Não podia esperar mais, resolvi ligar para ele outra vez, e se ele não atendesse.. O jeito era 'lavar as mãos' e pedir ao "Vôvô" para que chamasse seu neto.
Aumentando a erupção dentro de meu coração, ouvi sua voz quando aceitou minha chamada..


- Oi..


Uma voz grossa, rouca, típica de quem acabara de acordar.


- Estou te esperando.
- Já estou indo.


Desliguei. Para minha surpresa, não houve grosserias, ele apenas disse que já estava vindo.
Tentei planejar um texto, um apelo, palavras que o convencesse da importância de “nosso” amor.
Eu já estava exausta.
Voltei-me para frente de seu portão e sentei em um pequeno degrau que havia. Á essa altura, seu primo também já se encontrava acordado. 

Finalmente ele veio. Chinelo, jeans e moletom. Tinha se arrumado para mim? Não, tinha se arrumado para o clima. O clima da madrugada que estava de acordo com os meus sentimentos, sem beleza ou alegria, frio e chuvoso. 
Sua afeição neutra perguntou-me algo do qual ele já sabia a resposta.


- O que você esta fazendo aqui?
- Vim falar com você.
- E seus pais?
- Estão dormindo.
- Você fugiu de casa?
- Temporariamente.


Houve espanto.


- Você é louca?
- Estou começando a ficar sem você.


Suspirou.


- O que você quer falar comigo?
- Eu preciso de você de volta.
- Nós já conversamos sobre isso.
- Eu estou morrendo de saudades de você.
- Vai ficar mais ainda então.
- Porque?
- Hoje mais tarde vou pra praia com meu pai.
- E volta quando?
- Daqui á uma semana.
- Uma semana?! É muito tempo, não vou suportar.


Estiquei meus braços de maneira a encostar em sua perna pela brecha do portão.


- Me desculpe.
- Richard.. Tá, eu estou tentando ser racional. Já que.. Já que você vai ficar uma semana longe, usa esse tempo para pensar em nós. Para pensar na possibilidade de estarmos juntos outra vez.
- Tá bom.


Me surpreendi. Fácil demais.


- Como assim? 

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