A casa dos fundos.

Página 63.


Gaguejar me entregaria. Como demonstrar confiança quando se está completamente apavorada?! Sem pausas para respiração. Ouve falhas na voz.

- Eu.. Eu estava procurando a chave.
- E pra que você quer a chave?!
- É que eu sai também para ver o motivo da Éss latir e aí a chave caiu de baixo do carro e eu me abaixei para pegar.

A desculpa pareceu aceitável para mim, mas não tanto para ela. O medo da reação era o que estava pairando no ar. 
Ela me olhou fixamente por alguns segundos.

- Sei.. Saí daí! Vai pro seu quarto dormir, tira essa roupa e veste um pijama garota!

Não tive escolha, mas isso não queria dizer que eu havia desistido. Porém, a situação criou uma marcação da parte dela sobre mim. 
Subi ao meu quarto, deitei na cama antes que ela percebesse os travesseiros que havia colocado em baixo de meu cobertor, mas em vez de ir direto pro seu quarto, parou no meu e ligou a luz. Uma parte de meu ombro ficou para fora, o que deixou nítido a "blusa de sair" que estava vestida.

- Vai colocar o pijama agora!
- Tá bom mãe, mas por favor, não grita comigo.

Não era apelo, eu realmente estava sensível. Pensar que tudo poderia dar errado e que eu não poderia fazer nada era amedrontante.
Minhas lágrimas voltaram a cair, mas dessa vez com menos intensidade.
Troquei de roupa, apenas para tranqüilizá-la, ou melhor, para fazê-la dormir o mais rápido possível. Mas esse também era seu objetivo.

- Vai dormir agora filha, amanhã é outro dia. Cabeça erguida, fique bem tá?

Fez com que eu me deitasse e me embrulhou. Um beijo na testa.

- Dorme com Deus.
- Amém, a senhora também.

Esperei meia hora. Fui checar para ver se ela já havia adormecido, mas quando cheguei à porta do quarto dela, demos uma de frente a outra.

- Sophie, o que você ainda está fazendo acordada?

Por minha sorte, o quarto de minha mãe era suíte.

- Eu só ia usar o banheiro.

Faro de mãe é uma coisa incrível, por mais perfeitos que fossem os motivos que arranjasse, a desconfiança dela sempre falava mais alto.

- Sei, então vai usar o banheiro logo que eu vou esperar você pegar no sono.

Tranquei a porta e forjei a descarga.
Voltei para minha cama, mas dessa vez ela ficou do meu lado por uns 40min.
Por sorte, - ou não - eu já tinha feito aula de teatro, fingir que estava dormindo era fácil. O pior foi que a realidade de atuação foi tão grande, que acabei pegando no sono. 
Meu relógio biológico temperado de aflição me acordou ás 04h30 da madrugada. Frustrei-me pelo tempo perdido, mas talvez tivesse sido melhor, minha mãe já estava dormindo por um bom tempo, as probabilidades de ela acordar seriam bem menores.
Eu tinha que me arriscar de novo, a visão do meu coração estava limitada ao momento, e no momento aquela era minha única chance. 

Novamente, me troquei e sai de "fininho". Dessa vez no quintal, até a Éss estava no sono mais profundo.
Abri o portão com o maior zelo possível e finalmente coloquei meus pés para fora de casa. A rua estava vazia – Sinônimo de perigo.

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