A casa dos fundos.


Página 81.


E nada! Nada aconteceu. Era inacreditável, qualquer outra pessoa com uma dose de remédio errado teria morrido. Mas eu? Continuava lá, inutilmente viva.
Passei aqueles dias de maneira torturante.
No 4º Dia, encontrei-me dentro do banheiro, cortando minha pele com uma lâmina. Sangrei demasiadamente. Mas foi só. Imortal? Sorte? Para mim era azar. Viver doía mais do que qualquer coisa que eu tentasse fazer contra mim.
Não estava entrando no Messenger, porque toda vez que entrava ele vinha falar comigo, não por saudade. Apenas porque queria manter certa amizade impossível na época, porque era cruelmente crucificante fingir que nada havia acontecido.
Após uma semana ele me procurou. Vi um recado dele no Orkut de meu cunhado, apaguei. Eu não consegui me fazer mal fisicamente, então queria que ele sentisse minha ausência. Imaginasse que coisas ruins poderiam ter acontecido. Mas não agüentei.
No sábado, daquela mesma noite, dei um jeito de inventar mentiras para meus pais e a 00h00 lá estava eu no portão da sua casa.
Levei o nosso filme.. "Lua Nova". Pipocas e um coração partido.
Ele me deixou entrar, perguntou se eu estava bem. Sorria pra mim, mesmo com um clima terrivelmente estranho.
Seu primo ficou conversando conosco uns 15min. E quando ele saiu, fiz a tentativa de falsamente me confortar.
Tentei relembrar o que eu já havia tido um dia. Não sei ao certo o que eu queria, talvez ilusoriamente fazer de lembranças o mais real possível.

- Vamos assistir Lua Nova?
- Ah, não to afim.

Segunda tentativa.

- Tudo bem. Trouxe pipoca pra comermos, quer que eu faça?
- Não, obrigado.
- Senta do meu lado, vamos conversar!
- Não, to bem aqui.

Entendam, eu não era "louca", mas naquele momento eu surtei!
Eu não sei ao certo o porquê, já que ele estava tão educado e bondoso, estava realmente se esforçando pra ser meu ‘colega’ e eu estraguei tudo com minha desesperada vontade de tê-lo. Desabei a chorar e implorei..

- Volta pra mim! Desculpa, eu não consigo mais.. Eu preciso de você. Eu te amo!
- Sophie para! Não começa!

Calei-me, mesmo tendo tanto pra dizer, só minhas lágrimas falaram por mim.
Ele não teve o que falar, tentou ignorar, fingir que não estava me vendo.

- Me dá um beijo, só um.. Só pra eu matar a saudade. O último! Eu prometo.

Minha boca estava sedenta por seus lábios. Mas ele negou.

- Viu? Por isso evito você. Não dá pra sermos amigos desse jeito.
- Me desculpa. É difícil.

Ele me abraçou, ferindo minha alma.

- Por favor, tenta ficar bem. Não gosto de te ver assim.

Olhei no fundo dos seus olhos.

- Está quase impossível sem você. 
- Você é forte, eu acredito na sua capacidade! E eu vou te ajudar, tá bom?
- Obrigado.

E lhe dei um abraço do qual foi eternizado até hoje. É possível senti-lo ainda. Sincero e preocupado. Temperado de ternura. 

Voltei para casa sem sucesso.
Continuei a respirar. Havia dias em que aparecia um relapso de ânimo para recomeçar, mas logo passava quando a saudade gritava no "ouvido de meu coração". 

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