A casa dos fundos.

Página 41.


Chegamos ao portão de casa, ele se despediu apenas com um selinho. Algo no fundo do meu peito latejava constantemente. Parecia um aviso "sobrenatural" de que toda aflição que eu havia passado naquela tarde ainda não tinha acabado.
Fiquei um bom tempo na cozinha conversando com meus pais, tentei me distrair, até fiz a janta daquele dia. Depois, tomei um banho bem quente, com o intuito de quem sabe as energias ruins que o dia trouxe consigo não derretessem com a temperatura da água. Me troquei e fui mexer no computador, o relógio já apontava 21h e eu sabia que não conseguiria pegar no sono. Ao entrar no Messenger ele estava online, mas meu nome já não aparecia mais no seu "Subnick". E não ver meu nome ali, me provocou uma sensação não muito boa, e antes mesmo que eu pudesse questionar o porquê dele ter feito aquilo, ele veio conversar comigo..

- Oi.
- Oi amor! Aconteceu alguma coisa?
- Sim.. Precisamos conversar.

Na figurativa: "Meu coração ficou na mão".

- Não precisamos não, já conversamos demais hoje né Bebê? Deixa pra próxima, rs.

Tentei fazer gracinhas, mas parece que não adiantou. Ele demorou pra responder, e o silêncio "me corroía por dentro".

- Sophie.. Olha pra nós. Temos que confessar que não estamos em uma das melhores épocas do nosso namoro, não sei se vai dá certo daqui pra frente, brigamos até por coisas bobas!
- Foi uma vez só! Uma briga só. Eu já te perdoei por coisas imperdoáveis, você pode me perdoar por essa briguinha também.
- Não é só isso.. Nos vemos todo dia! Vamos acabar enjoando um do outro desse jeito, não saímos mais com nossos amigos, nosso mundinho se tornou só eu e você. Eu vou pra sua casa ás 13h, e só volto às 20h.. Não dá nem tempo de sentirmos saudades um do outro.
- Você reclamava comigo antes, porque eu não queria te ver aos finais de semana. Aceitei que nos víssemos todo dia por sua causa, sua vontade.. Não estou te entendendo! Você está enjoando de mim? É isso?! Tudo isso por causa de um desentendimento, ou há outros motivos que você não quer me contar?!
- Olha..

Pufft! Seriam essas palavras que sairiam se eu fosse tentar imitar o som que saiu do meu computador quando a luz acabou. Tudo escuro.
E Richard?! O que será que ele ia dizer? Como eu ia falar com ele? Eu não acreditava que aquilo estava acontecendo.. a primeira coisa que fiz foi tentar ligar pra ele.

"O celular chamado está fora de área ou desligado. Por favor, tente mais tarde"
Meu coração acelerou suas batidas. Minha perna começou a tremer e a minha maneira de respirar não era a mais confortável. Eu estava ansiosa, aflita, preocupada. Quase entrando em desespero. Não agüentava mais ouvir a voz da mulher da secretária eletrônica do celular, pela 10ª vez que tentei entrar em contato com ele. Será que ele desligou o celular de propósito?! Ele não queria mais saber de mim? O que iria acontecer dali pra frente? Eu precisava, com toda a necessidade em cada letra dessa palavra, resolver aquilo. Mas eu não podia sair de casa, já estava tarde. A luz não tinha voltado, e o celular dele estava desligado. Meus pais já estavam dormindo. A única acordada ali, era eu a escuridão, que por sinal se tornou a melhor forma de representar o que eu estava sentindo. A única coisa que consegui pensar em fazer era deitar e dormir, assim a noite passaria mais rápido.. e no próximo dia eu já iria poder resolver tudo.
Deitei na cama e tentei não pensar em nada, mas quanto mais eu fazia isso, mais tudo vinha em minha mente. Meus pensamentos eram tão reais que eu podia ouvir vozes me dizendo o que iria acontecer, o que não iria acontecer, o que eu deveria, e o que eu não deveria fazer. Isso me atormentou.
Rolei de um lado para o outro na cama, até  00:30h. Comecei a ouvir trovões, e o barulho pequeno da chuva que normalmente eu achava perfeito para se dormir, me incomodou tanto! Levantei e fiz uma oração, e tudo que pedi fosse que eu conseguisse dormir, e que quando eu acordasse tudo aquilo já tivesse acabado. Que tudo se resolvesse da melhor maneira possível.
Após minha conversa com Deus eu voltei pra cama. E cada gota d'água que caia lá fora parecia que gritava em meu ouvido. Coloquei o travesseiro por cima da cabeça e me esforcei pra tentar não pensar em nada. Foi horrível.. mas, depois de um bom tempo, - não sei quanto exatamente - eu consegui pegar no sono.

"And so it's, just like you said it would be.. life goes easy on me" Ao som de The Blowers Daughter - Damien Rice.. ás O3h15 da madrugada eu acordei com o meu celular tocando. No visor marcava: "Richard Calling".

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